sexta-feira, 24 de junho de 2011

A taxa de juros e suas conseqüências econômicas


O Mercado financeiro prevê que a taxa Selic irá sair dos atuais 11,75% para 12,5%. Um aumento de 0,75%. Com essa alteração o país se mantém na posição, entre os países com economia de peso, da maior taxa de juros.

A justificativa dada, pelo Banco Central, para este aumento é o controle da inflação, já que o crédito é encarecido, a base monetária é encolhida, segurando, desta forma, a demanda e por fim o aumento dos preços. Mas o que isso acarreta para nossa economia

A taxa de juros apresenta mais conseqüências para a economia, além do controle da inflação. De acordo com John Keynes, a decisão de investimento produtivo dos empresários capitalistas está ligada à taxa de juros, somado às incertezas sobre o futuro por parte dos empresários (“Animal Spirits”). Em poucas palavras, um aumento da taxa de juros torna o crédito mais caro, inibindo desta maneira não apenas o consumo mais o investimento produtivo, o crescimento da Formação Bruta de Capital Fixo, da capacidade ociosa na economia (está que é essencial para que a oferta se mantenha sempre à frente da demanda, impedindo o surgimento de surtos inflacionários) e por conseqüência o crescimento da renda do emprego.

Neste cenário o investimento financeiro, compra de títulos é estimulado, pois é um investimento que envolve menos riscos, incertezas, para o capitalista do que o investimento produtivo. Quando os juros se elevam, a taxa de retorno de um título se torna mais próxima ao retorno de um investimento produtivo, isso somado as incertezas do investimento produtivo faz com que ocorra uma queda no nível de investimento produtivo (por exemplo, a ampliação de uma planta fabril), isso ocasiona queda da atividade econômica, do crescimento da renda e emprego. Em contrapartida um taxa de juros baixo estimula o empresariado a realizar o investimento produtivo, que geram renda e emprego.

No caso brasileiro, zero setenta e cinco a mais na taxa de juros impacta diretamente o custo de financiamento da divida pública. Cada 0,75 ponto percentual a mais em uma dívida de R$ 1,2 trilhão, representa um custo anual de R$ 9 bilhões de pagamento de juros anual. Isso levando em conta que mais da metade da divida é formada de títulos pós-fixados, sendo diretamente influenciados pelos juros da Selic, e outro tanto é pré-fixada, mas acaba incorporando o aumento em cada renovação no vencimento dos títulos.

Outro impacto desfavorável é sobre a taxa de câmbio. Isso porque o aumento da diferença entre o juro doméstico e o juro internacional aumenta o espaço para operações de arbitragem cambial, o que vai ampliar a já grave valorização do real, com todos os impactos deletérios para a Balança Comercial.

Outro estrago de um juro mais elevado é sobre as decisões de compra e de investimentos. Sem necessidade provoca-se uma reversão das expectativas positivas, fazendo com que consumidores adiem decisões de consumo e empresários posterguem decisões de investimentos, como foi abordado no início deste trabalho.

Ou seja, se o argumento do aumento da taxa de juros foi mesmo do risco da inflação, então a decisão tomada tende a provocar o efeito exatamente contrário no longo prazo. Isso porque desestimula investimentos, que seria a verdadeira arma para garantir que a oferta corra à frente da demanda e, portanto, evite pressões inflacionárias futuras.

A elevação dos juros além do desestimulo ao investimento produtivo também acarreta em problemas para os gastos sociais, muitos recursos públicos tem de ser utilizados para o pagamento de juros, podemos notar que o pagamento de juros no Brasil teve um aumento de 400% em 11 anos, enquanto os gastos com educação e saúde se mantiveram praticamente estáticos. O juro elevado faz com que as políticas fiscais e sociais do governo fiquem subordinadas à política monetária, o pagamento dos juros se torna a prioridade, já que o descumprimento deste poderia acarretar em grave desconfiança, gerando fugas de capital, colocando em risco a estabilidade econômica.

A política monetária, via ajuste dos juros para o controle da inflação, representa um grande entrava para o investimento produtivo e os gastos sociais. Subordina todas as outras políticas econômicas à política monetária. Agravando os problemas sociais já existentes, impedindo o investimento produtivo, não apenas a demanda, a criação de renda e emprego.

A política de aumento dos juros é extremamente eficaz e rápida para o controle da inflação, todavia pune todos os setores da sociedade, tanto os setores que estavam gerando inflação, quando os que não estavam.

“Uma política de elevação da taxa de juros, como proposta pela regra convencional de disciplina da política monetária, não possui um mecanismo de diferenciação entre as firmas e trabalhadores que estão gerando inflação e aqueles que estão tendo um comportamento compatível com a estabilidade de preços. Muitas firmas inocentes (isto é, aquelas que não realizaram aumento de preços) não resistem aos elevados custos financeiros e a fraca demanda e entram em processo de falência, demitindo muitos trabalhadores, que ficam involuntariamente desempregados. A política de elevação dos juros utiliza-se da tática de provocar um resfriamento geral da economia, (...). A política antiinflacionária de elevação do juros derruba a inflação. Entretanto, condena a economia a um estado de semi-resfriamento permanente com altas taxas de desprego e baixas taxas de investimento (em média).”

Uma alternativa a essa política seria identificar os setores que são responsáveis pela inflação e agir com políticas focalizadas especificas para estes setores. Primeira identifica-se a causa da inflação e depois se realiza uma política especifica para combater essa causa ( Exemplo de causas inflacionárias: alta carga tributária em determinado setor, que poderia ser reduzida; falta de algum insumo, que poderia ser combatido com o barateamento da importação desse recurso; economia extremamente oligopolizada dando as empresas poder se decisão de preços; elevação salarial devido a reivindicações de trabalhadores, que acarretaram em um aumento de custos; entre outros). O modelo utilizado pelo Banco Central brasileiro de combate à inflação via exclusivamente ao aumento do juros acata somente sintomas da inflação ( a elevação dos preços) e não as suas verdadeira causas que foram citadas a pouco). Com políticas especificas para o combate inflacionário a economia e sociedade não seriam afetadas com um todo com um todo. Sem descriminação.

Bibliografia:
Sicsú, João. Políticas Não-Monetárias de Controle da Inflação: uma proposta pós-keynesiana. Revista Análise Econômica, ano 21, nº. 39.

Fredercio Matias Bacic - BLOG ECONOMIDIANDO - http://economidiando.blogspot.com/2011/03/taxa-de-juros-e-suas-consequencias.html

Um comentário:

  1. Quem ganha e quem perde com o juro alto? Se a taxa de juros é um mau negócio para a maioria que vive da produção (empresários e trabalhadores), por outro lado, ela é um excelente negócio para aqueles que vivem da especulação. O aumento da taxa de juros se traduz em transferir riquezas dos que produzem para os que atuam nos mercados financeiros.
    Esta defesa do aumento da taxa de juros, se a mesma acaba não se realizando (nos percentuais que a especulação sonha), acaba ao menos, dando para realizar alguns trocados, seja numa arbitragem de câmbio ou movimento de bolsa de valores, após uma notícia especulativa ou diria até mesmo terrorista.
    Qual seria o estágio final de uma expansão (a qual o aumento do juro tentaria frear)? Uma retração! Nada é mais certo, que ao fim de um período de expansão, haverá uma contração na economia, sempre foi assim, não?
    Quase concluindo com as palavras de Keynes em TGEJM (p.250): “(...) a elevação da taxa de juros como antídoto para a situação (...) pertence à categoria dos remédios que curam a doença matando o paciente.”
    Desta forma, se o perigo é o pico, ou o boom, deve-se tentar manter a economia (a produção, o consumo e tudo que orbita na mesma) numa situação de “quasi-boom” (p.249). Sei que seu carro pode chegar a 200km/h, mas se basta 120km/h para concluir a viagem, por que fundir o motor? Ou como diriam alguns banqueiros na crise mexicana de 95: “Não é a velocidade que mata, mas sim a freada brusca.”
    Mas como não aumentar o juro, se como dito, ele obedece à lei da oferta e procura (uma lei tão poderosa quanto à gravidade) e o Governo talvez seja o maior responsável pelo lado da procura? Quase que austriacamente (ave Hayek e Von Mises!) seria óbvio recomendar contenção nos gastos deste e equilibrar suas receitas com suas despesas. Mas aí, quem seria o indutor do multiplicador de trabalho (ave Keynes!), responsável por nosso irrefutável crescimento e inexorável competência em enfrentar a última das crises financeiras mundiais?
    Não existe resposta simples. Por fim, o comentário era apenas para expor a quem (muito) interessa o aumento dos juros...

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