quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Timemania: a aposta errada




A Timemania foi criada em março de 2008, sendo uma forma que o governo encontrou para ajudar os clubes de futebol a quitarem suas dívidas com a União (FGTS, INSS e Receita Federal), ou seja, com ele mesmo. Desta forma, estabeleceu que 22% da arrecadação são repassados aos times sendo que, deste montante, 65% são destinados aos clubes da primeira divisão, 25% para os da segunda divisão e 8% para as agremiações da terceira divisão. E o prazo estipulado para os clubes pagarem suas dívidas é de 20 anos.

Já a outra parte arrecadada pela Timemania é distribuída da seguinte forma: 46% para o prêmio, 20% para a manutenção do serviço e 12% restante vai para o governo indiretamente, pois os recursos são distribuídos para o Fundo Penitenciário, Santa Casa de Misericórdia, seguridade social, entre outros.

Quando lançou a loteria, o governo tinha a previsão de captar R$ 540 milhões em 12 meses, mas a realidade demonstra outros valores. Em seu primeiro ano, 2008, a Timemania angariou R$ 110 milhões, o que representa 20,3% do valor previsto. Na semana passada, a Caixa Econômica Federal divulgou o resultado obtido em 2009 e não foi nada satisfatório para os times. A loteria conseguiu R$ 112 milhões, ou seja, 20,7% em relação à meta inicial. Paralelamente, a dívida dos clubes vem apresentando um desempenho oposto ao da Timemania. Em 2007, a dívida total era de R$ 2,57 bilhões passando para R$ 3,24 bilhões, em 2009. Isso mesmo!

Visto isso, podemos dizer que a Timemania é uma aposta errada para salvar os clubes das dívidas porque o valor que cada time arrecada é quase insignificante perto de quanto devem para a União e a loteria mais ajuda o governo do que o futebol, já que fica com a maior parte da receita, a qual é gerada pelos apostadores, ou melhor, pelos torcedores, os que gastam com os ingressos e produtos dos clubes. O governo não desembolsa nada.

As dividas dos times são geradas de várias formas como ações trabalhistas, taxas elevadas das divisões dos campeonatos, entre outras, que afetam a contabilidade dos clubes, pois maior arrecadação não é garantia que haverá a redução dos débitos, visto que o dinheiro que sobra muitas vezes não é utilizado para quitar a dívida, servindo para comprar novos jogadores ou reformar o estádio para atrair mais torcedores.
Um exemplo recente é o Flamengo. O atual campeão nacional possui uma dívida de R$ 333 milhões, só com o INSS é de R$ 51 milhões. O time da Gávea é o clube que mais arrecadou com a Timemania, recebendo quase R$ 1 milhão (R$ 990 mil) em 2009. Se continuar neste ritmo, o Flamengo conseguirá quitar a dívida, apenas com o INSS, em 51 anos e a total em 333 anos. Rápido não?

O problema é que o governo estabeleceu o limite de 20 anos para os times deixarem de ser endividados, mas neste compasso faltará para o Flamengo, no mínimo, 31 anos a mais do que o estipulado. Desta maneira, em vez dos enfermos, quem irá para a Casa de Misericórdia serão os clubes. (Talvez esta seja a justificativa para receber uma porcentagem da Timemania)
Vocês devem estar perguntando: Será que existe salvação para o esporte das multidões?
A resposta é sim, existe!

A CBF, com o último Campeonato Brasileiro, conseguiu obter uma arrecadação de R$ 125.764.391, apenas com a série A e em 8 meses, ou seja, R$ 13.764.391 a mais que a Timemania arrecadou em 10 meses. O Campeonato é mais rentável que a loteria. Assim, a CBF poderia colaborar com os times de alguma forma.

E vale acrescentar que a empresa de consultoria Crowe Horwath RCS realizou um estudo por meio de receita consolidada dos times com estádio, sócio, mídia e marketing e concluíram que os clubes possuem grande poder de mercado. Segundo este estudo, as agremiações conseguiram uma evolução de 115% em suas receitas durante os anos de 2003 a 2009, tendo a bilheteria com a maior participação, com 23%.

Através disso, a empresa elaborou um ranking dos times mais valiosos do mercado brasileiro. Os cinco primeiros são: Flamengo, com um valor de marca de R$ 568 milhões, seguido por Corinthians, com R$ 563 milhões, São Paulo (R$ 552 milhões), Palmeiras avaliado em R$ 420 milhões e o Internacional com R$ 231 milhões. E a receita total dos clubes, em 2008, foi de R$ 1,72 bilhões.
Desta forma, se os times soubessem explorar melhor a sua marca, vendendo parte dela para empresas, fazer mais licenciamentos, as equipes conseguiriam quitar as suas dívidas mais instantaneamente, não necessitando da “ajuda” governamental. Por exemplo, se o Flamengo arrecadar com a venda de sua marca o valor de mercado, em um tempo relativo, não teria mais dívida.

Portanto, falta aos times criarem um modelo de gestão do futebol, com um fundamento econômico que beneficie não apenas as entidades esportivas ou o governo, mas eles, já que sem equipes não existe campeonato e muito menos as federações ou confederações. E não dependeriam de uma loteria que desde seu principio representa uma aposta errada para o futebol brasileiro.